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Apoio empresarial falha onde a fome é maior, mostra estudo

Escrito por Neo Mondo | 26 de junho de 2025

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O estudo mapeou 150 empresas dos setores de Agronegócio, Alimentos & Bebidas e Comércio Varejista - Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Dados mostram que o setor privado está presente no campo da segurança alimentar, mas não estruturado para causar transformação real

Um estudo inédito da Fundação José Luiz Setúbal (FJLS) lança luz sobre fragilidades importantes na atuação do setor privado frente à insegurança alimentar no Brasil. A pesquisa Investimento e apoio empresariais para garantia da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil (2020–2023) analisou 681 iniciativas de 2020 a 2023— período marcado pelos efeitos da pandemia da Covid-19 e desconstrução de aparelhos públicos de combate à fome — de 98 empresas nacionais e multinacionais de grande porte. O estudo revela que as ações empresariais em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN) têm ocorrido longe de onde a fome é mais crítica, com baixa transparência e foco restrito a partes da cadeia do alimento.

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Na análise dos resultados, três pontos se destacam:

  • Investimento empresarial não está nos lugares com maior insegurança alimentar: mais da metade das iniciativas (52%) aconteceram no estado onde a empresa tem sede. Isso demonstra uma lógica de conveniência geográfica e não de necessidade social. Regiões como Norte e Nordeste, com os maiores índices de Insegurança Alimentar e Nutricional (IAN), foram significativamente menos contempladas.
  • Mais de 70% das ações ocorrem nas pontas da cadeia alimentar: a grande maioria das ações empresariais está focada na produção e no consumo de alimentos, deixando de lado etapas essenciais como armazenamento, transporte e processamento – justamente onde há altos índices de perdas. Mesmo atuando comercialmente nesses elos, as empresas negligenciam seu potencial de impacto nesses pontos.
  • Baixa transparência dificulta avaliação real dos impactos: apenas 32,67% das empresas analisadas disponibilizaram relatórios públicos completos para todos os anos do período estudado. A maioria apresenta dados vagos, sem metas, indicadores ou detalhamento de público-alvo e orçamento. Faltam mecanismos de monitoramento e auditorias externas.

“Os dados do estudo mostram que o setor privado está presente no campo da segurança alimentar, mas não estruturado para causar transformação real. É preciso olhar para os territórios onde a fome persiste, apoiar organizações locais, focar em grupos com maior risco de insegurança alimentar, e integrar toda a cadeia alimentar”, afirma Laura Camargo, pesquisadora do Laboratório de Filantropia, Políticas Públicas e Desenvolvimento do Pensi Social, que integra o Instituto Pensi, frente de Ensino e Pesquisa da Fundação José Luiz Setúbal.

Baixo potencial e impacto transformador

A análise aprofundada dos dados revelou uma série de desafios que limitam o potencial transformador do investimento social empresarial em SSAN. Um dos principais entraves identificados foi a baixa institucionalização da filantropia empresarial: apenas 36 das 98 empresas analisadas possuem fundações ou institutos próprios. Isso indica que a maioria das ações está inserida nas áreas de Marketing ou Responsabilidade Social Corporativa (RSC), o que dificulta a alocação de recursos contínuos e estratégicos.

Outro ponto crítico diz respeito ao apoio limitado às organizações da sociedade civil (OSCs). Apenas 3,96% das iniciativas analisadas representaram apoio institucional às OSCs, e somente 2,35% contribuíram diretamente para a manutenção ou estruturação dessas organizações. Isso compromete a sustentabilidade das ações em nível local e restringe o fortalecimento de redes comunitárias.

A prevalência de ações de curto prazo e de caráter reativo também chama atenção. Grande parte das iniciativas analisadas respondeu a contextos emergenciais, como a pandemia de Covid-19 ou desastres naturais, sem compromisso com transformações de longo prazo. Além disso, casos de greenwashing e social washing foram observados: muitas ações tidas como “inovadoras” são, na verdade, práticas já previstas em legislação ou de impacto limitado. Um exemplo recorrente foi a doação de alimentos ultraprocessados, que oferecem pouca contribuição nutricional nos médio e longo prazos.

Outro dado preocupante diz respeito ao desperdício de alimentos. No Brasil, são descartadas cerca de 55 milhões de toneladas de alimentos por ano — volume que poderia alimentar toda a população em insegurança grave. Apesar disso, menos de 5% das ações analisadas abordaram a redução de perdas e desperdícios ou o reaproveitamento de alimentos.

“É urgente que as empresas brasileiras assumam um papel mais estratégico e responsável na garantia do direito humano à alimentação. Isso significa ir além da doação pontual e investir com seriedade, foco territorial e visão de longo prazo”, conclui Maria Victoria Vilela, também pesquisadora do Laboratório. 

foto de legumes, remete a matéria Apoio empresarial falha onde a fome é maior, mostra estudo
Foto: Ilustração/Pexels

Investimento por mercado

O estudo revelou que o Agronegócio foi o setor mais engajado no tema dentre os demais, concentrando 52,28% das iniciativas mapeadas, seguido pelo de Alimentos & Bebidas, com 26,87%, e o Comércio Varejista, com 21,29%. Considerando 681 ações, a maioria dessas iniciativas foi realizada na forma de projetos pontuais e de escopo limitado, representando 472 ações. Já os programas, que costumam ter maior duração e capacidade de impacto, corresponderam a apenas 118 ações.

No recorte temático, 45,67% das ações estavam alinhadas à meta 2.4 do ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), que foca na sustentabilidade e resiliência da agricultura. Outras 42,44% se relacionaram à meta 2.1, que trata diretamente do acesso universal e contínuo a alimentos adequados. Em relação aos mecanismos utilizados pelas empresas, predominam a doação de alimentos (36,1%) e a adoção de práticas sustentáveis de produção (35,4%).

 Considerando os grupos em maior risco de exposição à IAN, as ações atenderam principalmente as que se concentraram principalmente em pessoas em vulnerabilidade econômica (21,7%) e em grupos demográficos específicos, como mulheres, indígenas e ribeirinhos (18,5%). Ainda assim, menos da metade das iniciativas teve foco direto nesses grupos.

A distribuição geográfica das ações também revelou desequilíbrios importantes. As regiões Sudeste (240 ações) e Sul (207 ações) concentraram a maior parte das iniciativas, com destaque para os estados de São Paulo (146 ações) e Paraná (125 ações). Já o Norte e o Nordeste, onde os indicadores de IAN são mais alarmantes, foram significativamente menos contemplados.

Sobre o estudo

A pesquisa Investimento e apoio empresariais para garantia da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil (2020–2023) foi coordenada por Pietro Rodrigues, pesquisador responsável pelo Laboratório de Filantropia, Políticas Públicas e Desenvolvimento do Pensi Social, que integra o Instituto Pensi, frente de Ensino e Pesquisa da Fundação José Luiz Setúbal. O estudo dá continuidade a uma investigação anterior sobre o Investimento Social Privado (ISP) voltado à segurança alimentar e inspira uma série de produções e publicações realizadas pelos pesquisadores Laura Camargo, Maria Victoria Vilela e Pedro Luiz dos Santos.

O estudo mapeou 150 empresas dos setores de Agronegócio, Alimentos & Bebidas e Comércio Varejista, com base no ranking Valor 1000 (2023), entretanto apenas 98 possuíam alguma ação relacionada à ODS 2 Os dados foram extraídos de relatórios públicos — como os de sustentabilidade, ESG e atividades — e analisados com critérios como localização, tipo de ação, público-alvo, elo da cadeia produtiva e aderência ao ODS 2(Fome Zero e Agricultura Sustentável) e o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis) da ONU.

Confira a pesquisa completa AQUI.

Sobre a Fundação José Luiz Setúbal (FJLS)

A Fundação José Luiz Setúbal é o maior sistema de saúde infantil do País.  Com o propósito de pensar, cuidar e defender a infância saudável no Brasil, promove o bem-estar de crianças e adolescentes por meio da assistência médica, ensino e pesquisa e advocacy e filantropia.

É formada pelo Sabará Hospital Infantil, localizado na cidade de São Paulo (SP), e referência no atendimento de crianças e adolescentes até 18 anos; pelo Instituto PENSI e pelo PENSI Social– frentes de Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil, que realizam e promovem estudos científicos para profissionais da saúde, educadores, famílias e sociedade em geral; e pelo Infinis – Instituto Futuro Infância Saudável, braço de filantropia e advocacy, que luta em defesa da saúde da criança e do adolescente e do fortalecimento da sociedade civil no Brasil. 

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